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Para fundadora da PrograMaria, há interesse de mulheres por TI, mas faltam oportunidades

Iana Chan diz, ainda, que mulheres participam de forma desigual da produção da tecnologia. Confira a entrevista com a empreendedora

Aos 12 anos, Iana Chan sentou-se pela primeira vez em frente a um computador. O presente dos pais foi um marco em sua vida. Aquele foi o momento em que Iana descobriu o PC como ferramenta de expressão. “Adorava brincar com pacotes e criar animações. Também imaginava trocar mensagens por e-mail. A chegada da internet foi uma revolução na minha vida”, conta.

A fundadora da PrograMaria, ONG que oferece capacitação em programação para mulheres, adorava escrever e apostou na época em um blog pessoal. Mas não era qualquer blog. Ela queria customizar o layout e deixar o espaço com a sua cara. Surgia ali a primeira semente da Iana programadora. “Comecei a estudar e a programar de forma básica no blog. Logo notei que aquela era uma ferramenta muito potente. Até hoje, a tecnologia para mim tem poder de transformação.”

Você deve pensar, então, que Iana formou-se em engenharia, matemática ou ciência da computação. Só que não. “Quando vi o guia de profissão, nem ao menos li sobre o que se tratavam essas disciplinas. Pensei que não eram uma opção, mesmo gostando de exatas. Escolhi jornalismo”, conta Iana, que se graduou na Universidade de São Paulo (USP).

Leitora assídua e curiosa, Iana vivenciava o auge das redes sociais, como Orkut e o início do Facebook. O digital, sem dúvida, atraiu seus olhares. Atuando como jornalista, a facilidade de navegar pelo universo digital fez com que Iana assumisse a interface com o time de desenvolvimento. “Assim, logo migrei para a área de produto, à frente de um projeto de uma plataforma digital”, lembra. Na primeira reunião com o fornecedor com quem ela tocaria o projeto, identificou que a equipe era composta apenas por homens. “A falta de diversidade se materializou na minha frente. Percebi que tínhamos um problema”, assinala.

Nessa mesma época, uma amiga contou a Iana que queria fazer programação, mas ela não conseguia evoluir no tema. “Juntando esses dois insights, veio a semente da PrograMaria. Pensei, então, em criar um clube de programação para mulheres. Um lugar de apoio e acolhimento de mulheres que queriam ter esse conhecimento.”

Todo mundo é de tecnologia

Iana acredita que é preciso quebrar o estigma de que mulheres não sabem ou não se interessam por tecnologia. Essa é uma das missões da PrograMaria. “Todo mundo é de tecnologia. O que acontece é que as mulheres participam de forma desigual da produção dessa tecnologia”, alerta.

Em 2015, a PrograMaria saiu efetivamente do papel, depois de ter sido contemplada com um aporte em edital do VaiTec, iniciativa da Prefeitura de São Paulo. O programa apoia financeiramente projetos de tecnologias inovadoras, abertas e colaborativas, relevantes para as políticas públicas municipais.

De lá para cá, PrograMaria já capacitou centenas de mulheres com base em três pilares – Inspirar, Debater e Aprender. Em Inspirar, a ideia da ONG é mostrar exemplos de mulheres que trabalham com tecnologia e que merecem ter suas histórias celebradas e contadas. “Elas ajudam a desmitificar o que é programação, que somente os gênios da matemática podem programar ou que a atividade é baseada em sentar em frente a um computador de tela preta”, conta.

No pilar Debater, a PrograMaria busca apresentar números do mercado e mostrar onde é possível estudar e trabalhar ao optar por uma carreira em TI. “Nessa fase, buscamos sempre incluir homens, pois não adianta mudar somente a cabeça das mulheres”, afirma.

Já em Aprender, a proposta é oferecer cursos e oficinas para apoiar os primeiros passos em programação. “Para se ter uma ideia, em um dos cursos, com 30 vagas, tivemos mil inscritas em uma semana. Eu não compro mais a ideia de que mulheres não se interessam por TI. Há interesse, o que falta é fomentar oportunidades.”

Experiência transformadora

Iana acumula e compartilha centenas de histórias de mulheres que participaram dos cursos do PrograMaria e, de fato, transformaram suas vidas. “Queremos que elas tenham oportunidade de escolher. Experimentar e decidir se elas querem seguir em TI. Algumas optaram por ingressar nesse universo. Outras conseguiram colocar de pé um negócio por ter agora conhecimento de ferramentas para construir uma empresa”, revela.

Ela conta que o curso atrai não somente meninas que querem atuar em tecnologia. Há também alunas de marketing ou publicidade e que conseguiram resolver problemas sozinhas por saberem programar. “É o verdadeiro sentido do empoderamento.”

Ecossistema

A empreendedora, que também trabalha em uma aceleradora de startups, conta que para ampliar a discussão e a iniciativa, a PrograMaria encontrou nas empresas ótimos parceiros. Em 2017, a ONG firmou parceria com a Intel a CA Technologies para realizar cursos de programação. “Não conseguimos resolver o problema sozinhas. Empresas perceberam a importância de participar na formação de mais mulheres e passaram a contribuir”, comenta.

Segundo ela, ao criar um ecossistema transformador com a ajuda de empresas, é possível não só formar mulheres, mas diminuir o número de evasão no universo corporativo. “É preciso, ainda, treinar RHs para que contratações tenham isonomia e trabalhar internamente para que elas sejam retidas”, observa.

Para Iana, é vital criar um ambiente de acolhimento. “Tem uma série de microagressões que reforça a ideia de que as mulheres não deveriam estar onde estão. Empresas precisam criar espaço para elas se sentirem acolhidas e gerar ações que podem para que o ambiente se torne melhor o universo feminino. Não é uma mudança de sete cabeças, é um ambiente de mínimo respeito.”

Ser mulher e empreender

Falando sobre seu lado empreendedor, Iana reconhece que é um grande desafio ter uma empresa e ser mulher. Ela explica: “Tem poucas mulheres empreendedoras porque nos cobramos a um nível que não é saudável. Já conversei com homens que falaram que mulheres programadoras são excelentes, mas me pergunto a que custo”.

Iana quer um futuro no qual as mulheres se sintam livres e empoderadas. “Minha ambição é que a PrograMaria não precise existir. Meu desejo é que mulheres tenham igualdade de oportunidade e que não precisem vencer muito mais obstáculos do que os homens.”

Este artigo foi originalmente publicado por IDGNOW!.

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