PME

Por que o empreendedorismo pode revolucionar Guiné-Bissau

Guiné-Bissau é uma das nações mais pobres do mundo com PIB per capita de 620 dólares por ano. E é para este país africano que o brasileiro Newton Campos, professor da FGV e do IE Business School, tem convidado seus amigos para viajar. Ele lidera um programa de empreendedorismo por lá e está em busca de voluntários dispostos a auxiliar.

Batizado de Desafio GB, o programa é promovido pelo Banco Mundial e pretende ajudar a mudar a cara da economia guineense. Com 1,8 milhão de habitantes e o português como língua oficial, a Guiné-Bissau tem uma economia basicamente informal. “Acho que lá devem ter umas 100 empresas que pagam impostos”, explica Campos.

O Desafio GB quer ajudar a mudar esse cenário com formação, mentoria e ajuda financeira a 50 empreendedores selecionados. “Recebemos 5 mil inscrições e agora vamos selecionar 50 empreendedores. Se fosse no Brasil seria um programa pequeno, mas para aquele país é um programa de grandes proporções”, afirma.

Apesar das enormes diferenças entre Brasil e Guiné-Bissau, o professor afirma que há sim semelhanças, e elas vão além da cultura. “É um país que está 20, 30 anos atrás de nós. Mas isso comparando com São Paulo. Se formos para o interior do Brasil, em lugares como Tocantins, Rondônia, Acre, com certeza vamos encontrar situações semelhantes”, afirma.

Sendo assim, se o empreendedorismo pode ajudar Guiné-Bissau, também pode ajudar essas regiões brasileiras, reflete o professor.

Em entrevista a EXAME.com, Campos – que é especialista em empreendedorismo em economias emergentes –  falou sobre a realidade que encontrou em seu trabalho por lá, as comparações que fez com o Brasil e o papel do empreendedorismo em situações como essas.

Leia os principais trechos da entrevista:

Você está liderando o programa do Banco Mundial para ajudar a criar um ambiente empreendedor na Guiné-Bissau, um dos países mais pobres do mundo. Qual a proposta desse programa?

Newton Campos – Esse país tem muito problemas sociais, políticos e econômicos. É um país muito pequeno e está entre os dez mais pobres do mundo. Eu já fui pra lá dez vezes e, diferente do que imaginamos, isso não quer dizer que as pessoas estão morrendo de fome nas ruas. Quer dizer que não existe praticamente uma economia que não seja informal.

Estimamos que existam apenas cem empresas que pagam impostos em Guiné-Bissau. Isso não quer dizer que só existem cem pessoas fazendo negócios lá. Tem mercado no país inteiro, mas é uma economia 99% informal. Com isso o governo não tem como se financiar. É essa realidade que a gente quer mudar. A gente quer criar um ambiente onde esses milhares de pequenos empresários que existem lá, e muitos outros jovens que querem empreender, possam se tornar referencia em inovação. Eu sou o líder do projeto, e a equipe é formada principalmente por portugueses, guineenses e brasileiros.

O que já foi feito no programa?

Newton Campos – Todo o projeto vai durar três anos, e já concluímos um terço do trabalho. No início, estudamos mais de cem programas de incentivo ao empreendedorismo no mundo, para decidir o que fazer e o que não fazer.

Depois disso iniciamos uma campanha de quatro meses de sensibilização cultural do povo com relação aos valores do empreendedorismo. Lá é muito raro as pessoas terem acesso a televisão, então usa-se mais o rádio. Então fizemos programas de rádio debatendo o assunto, explicando o que é empreendedorismo, a importância da inovação, por que o empresário honesto e ético não é um bandido.

Aí receberam 5 mil candidaturas de pessoas interessadas em receber formação introdutória e avançada, capital e mentoria de apoio para desenvolver a inovação. Agora estou montando uma equipe de voluntários que vão selecionar os 50 principais projetos. Esses 50 vão receber o capital semente, que são 10 mil dólares por empreendedor selecionado. A seleção vai acontecer de 18 a 23 de setembro. As 500 melhores propostas fizeram uma formação introdutória em empreendedorismo. Já os 200 melhores fizeram um curso avançado, de mais de um mês, onde puderam melhorar muito seu projeto inicial. Agora essas 200 melhores propostas vão se apresentar para as bancas. Então vai começar a terceira e última fase que é o acompanhamento dos selecionados, que vai durar um ano e meio.

Que tipo de proposta interessa para vocês?

Newton Campos – Eu escrevi um livro chamado “O mito da ideia”, que diminui o peso da ideia no processo empreendedor. E isso está no coração do programa. A gente não dá tanta importância para a ideia. Selecionamos por uma metodologia que é a Effectuation, pela qual,  mais importante que uma ideia são os recursos que aqueles empreendedores têm pra inovar em algum setor especifico.

A linha de empreendedorismo que sigo é que a pessoa que tem empresa não é o empreendedor. Aquele público que o Sebrae atende, por exemplo, não é empreendedor. São pequenos empresários, ou comerciantes. O empreendedor é quem consegue implementar uma inovação.

A pessoa que consegue empreender é minoria dentro do mundo, a gente calcula que seja algo em 0,01% dos empresários na maioria dos países. São as pessoas que desafiam o status quo. Ela desenvolve um novo produto, ou uma nova maneira de produzir aquilo, ou de vender aquilo, ou de distribuir aquilo. Essa é a definição clássica de empreendedorismo. Com isso, não quero diminuir o valor de um cara que tem uma sapataria. A questão é que, se esse dono de sapataria quer ser empreendedor, ele tem que inovar.

Quando se fala em inovação, é comum pensar em aplicativos, tecnologia. Como falar em inovação num país com uma situação tão precária? Vocês não estão falando de criar aplicativos, certo?

Newton Campos – De jeito nenhum. Mesmo porque, se existe um programador na Guiné-Bissau ele acabou de ir embora para ganhar dinheiro na Europa. A gente se apoia em tecnologia, mas, para você ter ideia, a principal tecnologia hoje no país é a eletricidade, que chegou há super pouco tempo. Não é que eles nunca tiveram, mas o serviço se tornou muito precário.

Uma das propostas que mais recebemos é de empreendedores que querem criar galinhas. O que queremos medir é como que o cara veio lá no início com uma ideia horrível de vender galinha e hoje em dia está num outro nível, de vender pluma de galinha criada em teto coberto sem chuva, que vai gerar uma pluma de qualidade que não existe naquela região da África. Uma coisa é ele criar galinha que nem todo mundo cria, outra coisa é criar galinha de maneira diferente, ou com alimentação diferente ou num ambiente diferente, ou usando uma parte da galinha que ninguém usa. É isso que a gente está conseguindo mudar.

Teve alguma ideia desse tipo de inovação que chamou mais a sua atenção?

Newton Campos – Tenho várias. Por exemplo, lá já teve cinema, mas está desativado há uns 20 anos. O que surgiu no lugar: pessoas que têm um laptop, colocam um DVD, colocam numa cadeira de plástico na rua e cobram para as pessoas sentarem em volta e verem o filme. Um dos projetos veio e falou: isso prova que a gente quer cinema. Mas quão divertido é ver um filme naquela telinha lá longe? É ruim né? Então o empreendedor falou: eu quero comprar uma van, um tripé, projetor, bateria, e viajar pelo país de cidade em cidade. Isso seria uma inovação no campo cultural. É algo muito simples, mas que pode, sim, impactar a realidade do país. Principalmente se, antes do filme, ele passar um filme sobre higiene bucal, por exemplo. Hoje a expectativa de vida na Guiné-Bissau é 45 anos de idade. E uma das formas de expandir a vida de uma pessoa é fazer com que ela escove o dente, por mais básico que isso pareça.

É possível fazer uma relação da realidade que você encontrou na Guiné-Bissau com o que existe no Brasil?

Newton Campos – São estágios completamente diferentes em termos de economia. No Brasil são 210 milhões de habitantes, e na Guiné-Bissau são 1,5 milhão. São países de proporções diferentes. Por outro lado, se você for lá no interior de Rondônia, Tocantins, no Acre, a realidade é muito parecida com a de lá. Então, de certa forma esse aprendizado nosso de como empreender num lugar com tão poucos recursos, ou que os recursos são muito específicos, a gente pode fazer uma relação com o Brasil. A Guiné-Bissau está cerca de 20 anos atrás da gente, mas da gente aqui em São Paulo. Dependendo do interior que você for no Brasil, você também vai encontrar uma cidade, uma região que está 20, 30 anos atrás.

Existem índices na Guiné Bissau que encontramos facilmente no Brasil. Então minha pergunta é: da mesma forma que estamos mostrando para o guineense que ele pode inovar e trazer inovações de fora para o país dele, será que você que está em São Paulo não pode levar uma inovação para o Nordeste e acabar se tornando um empreendedor de sucesso lá? Com algo que, para nós em São Paulo é normal, mas que para lá é muito avançado? São essas reflexões que eu fiz de tanto ir pra lá.

Mostrar Mais

Artigos Relacionados

Close

Adblock Detectado

Ajude-nos a manter o site no ar desabilitando seu Adblocker